Introdução

Postal Ilustrado, CUF. Copyright © Câmara Municipal do Barreiro.
Postal Ilustrado, CUF. Copyright © Câmara Municipal do Barreiro.

O ensino não pode limitar-se simplesmente à transmissão de ideias, ele deve igualmente corresponder a experiências concretas (…) é necessário também leccionar nas paisagens, nas visitas aos museus. Se ensinarmos os grandes problemas que tocam cada um haverá não só a paixão e o entusiasmo dos professores como também grande entusiasmo dos alunos. (Edgar Morin sobre a transdisciplinaridade. Entrevista realizada por Maria Neves Alves, 9 de março 2012)

A natureza do conhecimento, a acessibilidade e a variedade de vestígios de património industrial existentes podem contribuir para o desenvolvimento de uma formação histórica, tecnológica, patrimonial e cívica, nomeadamente, para a motivação para o estudo de conteúdos programáticos, para o desenvolvimento de competências de pesquisa, para a análise da problemática científica e tecnológica das sociedades actuais, para o exercício da cidadania, através de acções de estudo, preservação e salvaguarda do património. (Alice Campos Martins, Maria Helena Salema. Em torno da construção de uma ident(C)idade educativa: contributos para a concepção de um módulo de formação destinado aos professores sobre património industrial, 2001.)

 

 

 

Tarefa

Construção das fábricas da CUF, 1907. Copyright © Câmara Municipal do Barreiro.
Construção das fábricas da CUF, 1907. Copyright © Câmara Municipal do Barreiro.

A abertura do primeiro troço ferroviário ao Sul do Tejo - entre o Barreiro e Vendas Novas - em 1861, deu início ao grande surto de desenvolvimento industrial no concelho, que durante mais de um século e meio caracterizou o Barreiro e o transformou no principal eixo na ligação Norte/Sul do País. Com o caminho-de-ferro surgiu a indústria corticeira, cujos primeiros fabricos datam de 1865. No final do séc. XIX o Barreiro viria a transformar-se num dos centros corticeiros mais importantes do país, empregando cerca de 1000 operários. Esta atividade desapareceu completamente do concelho, restando apenas uma fábrica, atualmente já desativada. Contudo, as grandes alterações da fisionomia tradicional deram-se com a entrada em laboração das indústrias químicas em 1907, pela mão de Alfredo da Silva, dando início ao grande complexo industrial em que se transformou o Barreiro durante o século XX. Algumas destas atividades deixaram testemunhos que hoje podemos considerar como património cultural, herança da industrialização portuguesa. (A industrialização no Barreiro. Câmara Municipal do Barreiro)

A pergunta é simples: E se fosse a escola a gerir um espaço pós-industrial?
A cidade do Barreiro é um Museu. O Património Industrial desse Museu são os objetos (materiais e imateriais) de inspiração para a conceptualização de um guião para o desenvolvimento de um projeto participativo de comunidade. Cabe à Escola, professores e alunos, coordenar também toda a operacionalização desse projeto.

Processo

Folheto Sociedade Instrução e Recreio Barreirense, 1921. Copyright © Câmara Municipal do Barreiro.
Folheto Sociedade Instrução e Recreio Barreirense, 1921. Copyright © Câmara Municipal do Barreiro.

O desafio está lançado, cabe à escola desenvolver e aplicar um projeto para gerir o Património Industrial da cidade do Barreiro. Para o fazer a comunidade escolar, dirigida por professores, deve seguir as etapas que agora se indicam.

Etapa 1 | Definir o tema do projeto. As temáticas do património e paisagens pós-industriais são de natureza multidisciplinar, pois permitem o cruzamento de várias disciplinas para o conhecimento das características culturais, económicas, sociais e políticas de uma região. Nesta primeira etapa deverá pesquisar criticamente, na secção links, os recursos disponíveis sobre o Barreiro pós-industrial e definir o tema do trabalho do projeto. Considere esta etapa como uma pré-investigação. A definição do tema do projeto nesta fase pode ser provisória e poderá ser adaptada e ajustada no decorrer das seguintes etapas. Procure orientar a sua escolha respondendo à questão “Porque deve a escola participar na gestão do património industrial do Barreiro?”.

Etapa 2 | Justificar a escolha do tema do projeto. É importante fundamentar a escolha do tema específico a tratar neste projeto. Para o fazer deverá:

Construir um mapa de conceitos: na introdução e explicação da tarefa deste módulo de eLearning foram referidos alguns conceitos importantes. Registe-os, acrescente outros conceitos que considerar importantes, procurando desde logo estabelecer relações.

Sustentar o mapa de conceitos com uma pesquisa bibliográfica: as leituras iniciais, disponíveis na secção dos recursos, irão permitir especificar o eixo condutor do trabalho. Utilize essa bibliografia, acrescentando-a, para justificar a intervenção da escola no património industrial do Barreiro.

Delimitar o espaço pós-industrial onde a escola vai intervir: a definição do tema implica desde logo a seleção do espaço pós-industrial que será alvo da intervenção da escola através deste projeto. Lembre-se que tem na secção recursos informação para fazer a sua escolha.

Etapa 3 | Planificação do projeto. Definidas as primeiras duas etapas já tem uma ideia do tipo de projeto/ação a implementar. Nesta fase deverá avançar cumprindo os seguintes passos:

_determinar os objetivos gerais do projeto

_definir os públicos-alvo

_formar os grupos de trabalho (recursos humanos)

_levantamento de recursos materiais

_desenvolver um cronograma (calendarização)

_orçamento

Etapa 4 | Desenvolvimento do projeto. Nesta fase relembre-se: “O recurso a metodologias de arqueologia industrial possibilita o desenvolvimento de projetos multidisciplinares interdisciplinares e a sua utilização no ensino permite a concretização de conteúdos programáticos de natureza mais abstrata e aumenta a possibilidade da comunidade escolar estabelecer inter-relações com o seu património e história local.” (José M. Amado Mendes. "A Arqueologia Industrial: Problemática e Potencialidades". Revista Vértice, II Série, Lisboa, 54,1993). Cumpra as seguintes etapas:

_desenvolvimento do trabalho de campo

_pesquisas/recolha de dados e outras informações

_troca de informações

_reformulação de objectivos

_sínteses de informações

_etc.

Etapa 5 | Produção Final. Esta etapa corresponde à preparação dos produtos e/ou resultados do projeto/ação da escola. É importante que tenha bem definido na fase de planificação os grupos de trabalho (equipa de coordenação; equipas de apoio; colaboradores; parcerias etc.) e os recursos materiais.

Etapa 6 | Apresentação dos resultados. Dependendo do resultados e/ou produtos a desenvolver no âmbito deste projeto/ação deve preparar a apresentação dos mesmos, numa mostra final, sem esquecer de ativar durante a execução do projeto os meios para a sua continua divulgação.

Transversal a todas as etapas indicadas é a Avaliação. Deve guardar para cada fase momentos de avaliação para não só monitorizar a execução do projeto, bem como avaliar os resultados finais.

Resultados de aprendizagem

Conhecimentos

  • Conhecimentos aprofundados sobre Património Cultural e Património Industrial.
  • Conhecimentos aprofundados sobre os valores históricos, tecnológicos, científi-cos arquitetónicos e sociais do Património Industrial.
  • Conhecimentos fundamentais sobre as metodologias da Arqueologia Industrial.
  • Conhecimentos aprofundados sobre Educação Patrimonial; Educação Museológica; Educação para a Cidadania.
  • Conhecimentos fundamentais sobre conceptualização, gestão e produção de projetos.

Aptidões

  • Conceber projetos educativos inovadores e multidisciplinares.
  • Aplicar uma metodologia de projeto.
  • Propor e negociar metodologias e estratégias pedagógicas.
  • Contribuir para a mudança de atitude no que se refere à utilização do pa-trimónio industrial como recurso educativo.

Atitudes

  • Demonstrar capacidades de gestão na implementação de projetos multidisciplinares.
  • Mediar as relações entre os diferentes interlocutores do projeto.

Conclusão

Quase dá vontade de perguntar, como fez um turista ao visitar um museu de tipo tradicional: E as pessoas da localidade não comiam, não trabalhavam nem se vestiam? Não ocupavam os seus tempos livres, não se abasteciam nem vendiam alguns excedentes? Ora, o estudo do património industrial, por meio da arqueologia industrial − e não só − possibilitará e facilitará a “entrada” na história do povo anónimo, de objectos do quotidiano, de tecnologia, de processos de trabalho, de saber-fazer, de artigos diversos, de meios de transporte e comunicações ou mesmo de utensílios e equipamento doméstico, desde os mais tradicionais aos electrodomésticos mais sofisticados das casas, também já chamadas “inteligentes”. (José Amado Mendes. A arqueologia industrial ao serviço da história local.1995)

A escola, inserida num meio local, deve assumir um compromisso enquanto agente essencial na preservação, manutenção e promoção das paisagens pós-industriais. Um sítio pós-industrial, de acordo com o descrito na Carta de Nizhny Tagil sobre o Património Industrial (2003), reveste-se de um valor social como parte do registo de vida dos homens e mulheres comuns, e como tal, confere-lhes um importante sentimento identitário. Cabe a cada um dos elementos da comunidade escolar assumir uma responsabilidade individual de intervenção, crítica e consciente, de forma a garantir a continuidade de um património comum, através de ações pedagógicas e de formação de uma cidadania ativa.

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